Dos direitos minerais aos direitos humanos: mobilização de recursos das indústrias extrativas na Nigéria para a água, saneamento e higiene

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7 December 2017
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WaterAid/Andrew Esiebo

Anddy Omoluabi, diretor de programas da WaterAid Nigeria, e John Garrett, analista sénior de políticas – financiamento do desenvolvimento da WaterAid UK, consideram como a riqueza em recursos naturais da Nigéria pode contribuir melhor para acabar com a pobreza do país em termos de água e saneamento.

Figura 1: campos petrolíferos e de gás nigerianos

Nigerian oil and gas fields

Desde que o petróleo foi descoberto no Delta do Níger em 1956, domina a economia nigeriana, com a produção de petróleo e gás atualmente a ter lugar em nove de 36 estados: Abia, Akwa Ibom, Bayelsa, Cross River, Delta, Edo, Imo, Ondo e Rivers. A Nigéria é o maior exportador de petróleo de África e o sexto maior país produtor de petróleo do mundo, com o setor petrolífero a fornecer a maior parte da receita do governo (Figuras 2 e 3). No entanto, uma governação fraca, casos de corrupção ao mais alto nível e um desempenho ambiental desastroso prejudicaram a contribuição da IE para o progresso do desenvolvimento económico e humano da Nigéria.

Os choques externos recentes à economia sublinham a necessidade de mudança. O menor preço do petróleo levou a uma recessão em 2016, pela primeira vez em duas décadas, colocando forte pressão sobre o naira, e levantando preocupações sobre a sustentabilidade da dívida e a capacidade do governo para financiar serviços essenciais. O ministro das finanças destacou os défices em infraestruturas de estradas, caminhos de ferro e eletricidade. O mesmo acontece com a água e o saneamento: menos de 20% da população tem acesso a água potável e segura.

Fortalecimento da mobilização de recursos domésticos: acabar com o roubo, a corrupção e as brechas fiscais

Como pode a Nigéria reforçar a sua mobilização de recursos domésticos (MRD)? A ação mais urgente é conter o roubo de produtos petrolíferos por indivíduos e grupos. As evidências sugerem que tanto o roubo físico de petróleo no delta do Níger, como o crime financeiro de alto nível nos negócios e na política ocorreram à escala industrial, ao longo de décadas.

Figure 2 and 3

Resolver o roubo físico requer uma combinação de resposta legislativa, de segurança, social e ambiental. Estão reunidos os elementos necessários: legislação como a Petroleum Industry Governance Bill (PIGB), a estratégia de investimento de 10 mil milhões de dólares no delta, a Host Communities Bill e o programa de limpeza ambiental de 1 milhar de milhões apoiado pela ONU. O sucesso irá exigir um equilíbrio de determinação, sensibilidade e apoio externo. O surgimento de investigações com resultados perturbadores sobre o impacto da poluição por hidrocarbonetos na saúde materna e de recém-nascidos, bem como os trágicos acontecimentos de novembro mostram que ainda há um longo caminho a percorrer.

O combate à criminalidade financeira de alto nível exige esforços nacionais e internacionais renovados. A prioridade dada pela atual administração federal ao combate à corrupção, a implementação da PIGB, a tração adquirida pela Nigeria Extractive Industries Transparency Initiative (NEITI) são prometedoras. A tenacidade da Economic and Financial Crimes Commission (EFCC) também está a dar resultados. A ação coordenada da EFCC, dos tribunais, dos EUA e do Reino Unido tem sido essencial nos últimos casos ao mais alto nível. No entanto, continuam a manter-se questões sérias, como se os países com elevados rendimentos – e as jurisdições que influenciam – estão realmente empenhados em evitar o fluxo de fundos ilícitos para fora da Nigéria. Os mercados imobiliários de Londres, Los Angeles, Nova Iorque e Ilhas Virgens Britânicas (ao facilitar a criação de empresas de fachada) sustentaram os fluxos financeiros ilícitos do setor da IE na Nigéria.

Aumentar a MRD da IE também requer medidas para acabar com as brechas fiscais. Para três empresas petrolíferas internacionais (IOCs), Shell, ENI e Total, o estatuto de pioneiras (um incentivo à inovação) e outros incentivos fiscais forneceram uma isenção de 3,3 milhares de milhões de dólares em pagamentos de impostos. Também se estima que o uso inadequado dos preços de transferência por parte das IOCs custe às finanças públicas nigerianas centenas de milhões de dólares.

Transparência e responsabilização

Apesar do progresso da NEITI, a transparência e a responsabilização ainda não estão suficientemente incorporadas para evitar a corrupção de alto nível. Há uma preocupação crescente – reforçada pelos recentes Paradise Papers e Panama Papers – com a função das empresas anónimas. A propriedade oculta de imobiliário e de empresas é um grande contribuinte para os fluxos financeiros ilícitos que saem dos países em desenvolvimento, e a Nigéria precisa de tomar medidas para impor a transparência dos beneficiários efetivos de todas as empresas que operam no setor da IE.

A receita do governo da Nigéria em percentagem do PIB foi de apenas 4,8% em 2016. Esta é uma das mais baixas do mundo. Há cada vez mais evidências de que países com receitas fiscais inferiores a 15% do PIB não podem financiar funções básicas do Estado. No entanto, ações como as descritas acima poderiam reforçar consideravelmente a MRD e os progressos realizados em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo o acesso universal a água potável, saneamento e higiene (WASH).

O relatório também mostra como as IOCs, através da sua responsabilidade social empresarial, contribuíram para o setor de WASH. A IOC italiana Agip financiou infraestruturas hídrica em 75 comunidades de quatro estados no Delta do Níger. No entanto, os investimentos têm sido, geralmente, limitados, com as IOCs a apontar a situação precária em termos de segurança como um grande obstáculo. Há claramente margem para fazer mais nesta área.

Figure 4

Um desafio colossal

Embora a Nigéria tenha cumprido a meta da água dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio de 2015, atualmente, apenas 19% da população tem acesso a serviços de água com gestão de segurança. Não houve progresso global na melhoria do saneamento, com a defecação a céu aberto e o acesso ao saneamento partilhado e melhorado a piorar desde 1990 (ver Figura 4). O país enfrenta um desafio colossal para aumentar os níveis de acesso em conformidade com os objetivos dos ODS 6.1 e 6.2. O Banco Mundial estimou que os custos de capital serão de 10 milhares de milhões de dólares por ano até 2030.

É encorajador ver medidas bem-sucedidas adotadas para identificar e devolver fundos roubados, como o recente acordo para devolver 321 milhões de dólares à Nigéria. Um passo crítico para aumentar os incentivos para o repatriamento de fundos ilícitos e a captação de mais fundos da IE poderia ser a criação de um fundo circunscrito, dedicado a recursos dos ODS, incluindo o ODS 6. Com a supervisão do governo federal e da sociedade civil, poderia funcionar como um poderoso mecanismo e incentivo para captar receitas adicionais, melhorar a gestão financeira pública e estimular o desenvolvimento sustentável na Nigéria até 2030.

Por último, o relatório defende um horizonte de planeamento a longo prazo. Países que geriram com sucesso o seu setor da IE, como o Botsuana ou a Noruega, implementaram uma governação eficaz, transparência e planeamento a longo prazo. O fracasso em regulamentar a IE causa problemas ambientais a longo prazo e, em última análise, prejudica o desenvolvimento, tal como o Delta do Níger tragicamente demonstrou.

Os países africanos são altamente vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, devido ao acesso desigual à água potável e ao saneamento, à dependência da agricultura pluvial e aos elevados níveis de pobreza. A Nigéria tem oportunidades significativas em termos de energia hidroelétrica e solar, e à medida que o mundo procura fazer uma transição para uma economia de baixo carbono, o país deve considerar cuidadosamente as suas fontes de energia e o que implicam para a gestão da sua IE, bem como os efeitos sobre a sua base de receita petrolífera.

John Garrett está no Twitter como @johngarre e a WaterAid Nigeria como @wateraidnigeria

As informações neste blogue foram atualizadas a 12 de dezembro de 2017.