Os heróis desconhecidos da pandemia de COVID-19

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5 June 2020
WaterAid

Em todo o mundo, a pandemia de COVID-19 chamou a atenção para as funções vitais dos trabalhadores essenciais, tais como os da saúde e do saneamento. Temos de aproveitar esta oportunidade para melhorar as condições muitas vezes perigosas em que trabalham todos os dias, argumenta Andrés Hueso.

Se houve algo que se espalhou ainda mais rapidamente do que o coronavírus durante esta pandemia, isso foi o reconhecimento dos profissionais de saúde. A nível mundial, as pessoas dedicam-lhes aplausos e manifestam o seu apoio em janelas e portas, para agradecer a esses trabalhadores essenciais pelo seu esforço e coragem ao enfrentar a ameaça da COVID-19 no seu trabalho diário. Coragem que, infelizmente, está no limiar do heroísmo sempre que estes não têm acesso a equipamento de proteção individual.

Este merecido tributo deve ser estendido a outros trabalhadores que contribuem para manter a sociedade a funcionar e a nossa segurança. Em particular, gostaria de destacar os trabalhadores do setor de saneamento e resíduos, que mantêm os ambientes das comunidades limpos. A interrupção dos serviços que prestam deixaria as sociedades em risco de surtos de muitas outras doenças. Muitas vezes, têm falta de informações adequadas e de equipamentos de proteção individual para se manterem seguros, a sua coragem roça o heroísmo, mas raramente recebem reconhecimento por isso.

Condições precárias e riscos para a saúde são amplificados durante a pandemia

Os trabalhadores do setor de resíduos e saneamento já enfrentavam condições de trabalho críticas antes da pandemia — infeções debilitantes, lesões, estigma social e até morte. Durante a pandemia, precisamos dos seus serviços, e eles têm de continuar a prestá-los, qualquer que seja o risco, seja por causa do dever cívico, do medo de perder o rendimento diário ou até mesmo o emprego.

(E-D) Somappa, 52 anos, Muniraju, 37 anos, e Kaverappa, 54 anos, terminando manualmente de esvaziar um poço, em Bangalore, Índia, com pouco equipamento de proteção.
WaterAid/ CS Sharada Prasad/ Safai Karmachari Kavalu Samiti
(E-D) Somappa, Muniraju e Kaverappa terminando manualmente de esvaziar um poço, em Bangalore, Índia, com pouco equipamento de proteção.

Mais trabalho por menos dinheiro

Nalguns casos, os trabalhadores do setor do saneamento foram redistribuídos para limpar os centros de quarentena e cuidar de pacientes com COVID-19.

Ahistória de Rajib no Bangladexe é uma boa ilustração da situação que muitos trabalhadores de saneamento e resíduos enfrentam. Trabalhador de resíduos municipais no período da manhã, Rajib torna-se empregado de limpeza de um hospital privado à noite e, ocasionalmente, responsável pelo esvaziamento das fossas sépticas. "Prestar serviços no meio de uma pandemia, sem equipamento de segurança adequado, é correr risco de vida, mas não posso deixar que a minha família morra à fome", afirma. "Claro que tenho medo da morte, mas odeio ainda mais a fome."

O município alargou o seu horário de trabalho para tentar aumentar o nível de limpeza da comunidade e, ao mesmo tempo, reduziu o seu ordenado: as horas extra não são remuneradas, e o seu tempo para os outros empregos diminuiu, o que reduziu o seu rendimento mensal global. O seu salário regular também está atrasado, devido à redução do horário de trabalho em bancos e escritórios.

Aumento da exposição à doença

Os trabalhadores do setor de saneamento também correm maior risco de contrair o vírus. Muitos esforçam-se por manter a distância física ao recolher o lixo porta a porta, ao frequentar instalações sanitárias comunitárias ou ao interagir com os agregados familiares para esvaziar poços ou fossas sépticas. Muitos estão expostos a superfícies de contacto frequente que podem estar infetadas – por exemplo, ao limpar instalações sanitárias (puxadores, sanitas, torneiras) ou ao fazer o transporte e a triagem de resíduos. Muitos nem sequer têm, nem podem pagar, luvas, máscaras e outros equipamentos de proteção individual apropriados que possam mitigar esses riscos. Aqueles que trabalham em hospitais e centros de quarentena correm, provavelmente, os maiores riscos, tal como demonstra a infeção de 32 trabalhadores de saneamento num hospital na Índia, e a morte de um deles.

Nirere Esther, 29 anos, funcionária da limpeza do hospital, limpando a enfermaria de partos recentemente renovada no Centro de Saúde de Nzangwa, Distrito de Bugesera, Ruanda, outubro 2018.
WaterAid/ James Kiyimba
Nirere Esther, funcionária da limpeza hospitalar, usando equipamento de proteção individual para limpar a enfermaria do Centro de Saúde de Nzangwa, Ruanda, em 2018.

Falta de equipamentos e formação

Outros problemas incluem o acesso a estações de lavagem das mãos, instalações para limpeza de equipamentos, água, sabão, desinfetante ou desinfetante à base de álcool.

Poucos receberam informações ou formação sobre os riscos que o coronavírus representa e sobre como podem proteger-se, bem como àqueles que os rodeiam. Nalguns casos, os trabalhadores do saneamento são vítimas de ainda mais discriminação do que o habitual, e até mesmo de ataques.

Esta não é uma história de países pobres. Olhemos para o Chile, a França, o Paquistão – a história repete-se em vários continentes.

Esta é a oportunidade para a mudança

Porém, há luz no final do túnel; um pouco por todo o mundo, podemos ver as coisas a caminhar para a mudança da estigmatização e dos riscos de segurança que os trabalhadores do saneamento enfrentam. Por exemplo, os trabalhadores de saneamento mobilizam-se para exigir equipamento de segurança e seguro de saúde. As famílias são simpáticas e mostram o seu apreço para com os trabalhadores. Os ativistas fazem angariações de fundos para distribuir equipamentos de proteção. Os sindicatos e as organizações da sociedade civil lançam um apelo global à ação. Os serviços públicos, os municípios e os governos nacionais assumem as suas responsabilidades para com os trabalhadores.

Enquanto parte destes esforços, foram desenvolvidos muitos recursos:

A pandemia de COVID-19 é um momento de maior perigo para os trabalhadores de saneamento e resíduos. É também um momento de maior consciência, tanto da nossa dependência desses trabalhadores essenciais para a nossa saúde, como dos riscos que enfrentam todos os dias. É uma oportunidade rara para colocar a sua situação no centro das atenções, e trabalhar para consolidar ainda mais o reconhecimento e o apoio que merecem.

Todos esperamos que o mundo que vai surgir depois da COVID-19 seja mais gentil e harmonioso. Um mundo com mais empatia e dignidade. Um mundo onde os trabalhadores – quer sejam do setor de cuidados de saúde, resíduos ou saneamento – possam fazer o seu trabalho com segurança e dignidade.

Vamos todos desempenhar o nosso papel para chegar a essa realidade. Por que não começar por partilhar, apoiar e dar força às iniciativas e recursos existentes para apoiar os trabalhadores de saneamento e resíduos?

Andrés Hueso é analista sénior de políticas de saneamento na WaterAid UK. Está no Twitter como @andreshuesoWA